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Casada, escritora, com a alma rodeada de perguntas... Amo meu marido, minha família e meus animais de estimação. Sou um pouco ansiosa, gosto de tudo o que faz bem. Amo escrever... Isso faz de mim elo com os sentimentos que me consomem e que vagam por entre as pessoas. Sou uma pessoa extremamente intuitiva, que adora ouvir música (extremamente seletiva quanto a isso), que ama escrever, que faz do amor sua fonte de energia vital... Sempre!

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Filha da Mãe



Num sobe e desce na sarjeta, escura,
A menina vê seus sonhos partirem.
Não sabe quanto já improvisou na vida,
Para que a vida não a engolisse.
Aprendeu a mexer o doce, para ele não queimar.
A também vendê-lo, garantindo o que comer na noite seguinte.
Contudo, não sabe se seu amanhã
Realmente virá, depois do sono.
Não tem ideia, mas segue à espreita.
Segue admirando os cisnes, no lago.
Segue a pedir um pão, na guia de uma rua qualquer.
Não tem morada fixa.
Apenas a imensidão da noite como guardiã.
Por horas, fala consigo mesma.
Tentando mostrar a Deus sua indignação.
Senta quieta, num canto qualquer.
E espera a barriga parar de roncar.
Já matou a fome afogada, inúmeras vezes.
Numa água barrenta e fétida.
Que nem cachorro sarnento mereceria coisa igual.
Não tem todos os dentes.
Nem os sonhos.
Foi perdendo-os com os murros da vida.
E não foram poucos.
Tem catorze, quase quinze.
Mas, se olhar bem lá no fundo,
Já passou dessa idade pouca, há muito.
Viu-se solitária aos sete.
Quando perdeu mãe num tiroteio.
Fugiu do padrasto aos oito,
Depois de muito ser abusada.
Abortou uma criança,
Sendo ela outra criança.
E decidiu vender seu corpo
Para poder matar a fome.
Já injetou, cheirou e se perdeu.
Sabe que não vai para o céu.
Está bem longe de ir visitar Deus.
Talvez o diabo lhe queira.
Como tantos diabos de carne
Que a fizeram chorar depois de usá-la.
E não há como contar quantos foi.
Mais de cem ou menos de mil, talvez.
Num querer saciar o sexo
Em qualquer orifício que ela possuísse.
Sabe cada posição.
Embora não goste.
Mas, a mais pedida é a que mais lhe dói.
Sente-se penetrada, perfurada, perdida.
E nem na juventude ainda se encontra.
É quase menina.
Num corpo de mulher madura.
Seus seios, fartos, ela não esconde.
Talvez por serem eles o ingresso para o jantar.
Alimenta-se dos restos, quando tem.
Ou chupa uma bala, para poder driblar a fome toda.
É menina da rua.
Com olhar de solidão.
E pedinte, sem abrir a boca.
Não esboça choro, nem gozo.
Por não saber mais qual é qual.
Não espera a felicidade.
Simplesmente por não crer que ela exista.
Não gosta de expectativas.
Nem de dialogar.
É do silêncio todo.
Como forma de pedir perdão.
Quem sabe, seja perdoada.
Quem sabe, seja iluminada.
Que sabe, seja menina de novo?
Depois que a tempestade passar, lá fora.
Depois que a luz voltar, na rua.
E depois de mais um pedido de socorro.
Silencioso e sôfrego,
Enquanto lhe invadem, de quatro.
Num ferir intencional.
Num abuso quase descomunal.
É filha de tantas mães.
Que dobram a esquina,
À espera dos olhos do Todo Poderoso.
Filha como tantas.
Que não sabem se o amanhã chegará.
Que não sabem se o perdão existe, realmente.

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